Hamas, Israel e a fabricação conveniente do inimigo
Como a instrumentalização do “terrorismo” ajuda a perpetuar a ocupação da Palestina
A narrativa dominante no Ocidente costuma apresentar o conflito entre Israel e Palestina como um embate entre um Estado que “busca a paz” e um inimigo movido pelo “terrorismo”. No entanto, uma análise histórica mais cuidadosa revela um quadro bem diferente — no qual o Hamas não surge como um acidente, mas como resultado indireto de decisões estratégicas tomadas por Israel ao longo de décadas.
Antes de explorar esse ponto, é necessário esclarecer um aspecto central: a política israelense, na prática, nunca teve como objetivo real a criação de um Estado palestino soberano e viável. O discurso da paz tem sido repetidamente utilizado como instrumento de procrastinação, enquanto a colonização avança de forma contínua e irreversível sobre o território palestino.
O terrorismo como justificativa política
Qualquer processo de ocupação prolongada precisa de uma narrativa legitimadora. No caso israelense, o conceito de “terrorismo” cumpre essa função com eficiência. Ele desloca o foco da ocupação, do bloqueio e da colonização para a violência reativa do ocupado, apresentada como causa — e não consequência — do conflito.
Com a ajuda de uma cobertura midiática amplamente alinhada aos interesses geopolíticos ocidentais, a figura do “inimigo terrorista” torna-se essencial para justificar:
o bloqueio de Gaza,
a expansão de assentamentos ilegais,
a fragmentação territorial da Cisjordânia,
e o colapso contínuo de qualquer negociação real de paz.
O precedente histórico: o uso do islamismo político pelo Ocidente
O apoio ocidental a movimentos islâmicos fundamentalistas não é uma novidade histórica. Após o colapso do Império Otomano, potências europeias — especialmente o Reino Unido — passaram a incentivar lideranças religiosas como forma de neutralizar movimentos nacionalistas e laicos no mundo árabe.
Nesse contexto surge a Irmandade Muçulmana, que ao longo do século XX foi:
tolerada,
instrumentalizada,
e por vezes apoiada por potências ocidentais,
especialmente durante a Guerra Fria, como ferramenta contra o socialismo e o nacionalismo árabe. Os Estados Unidos, a partir das administrações Truman e Eisenhower, passaram a utilizar o islamismo político como um contrapeso ideológico ao comunismo, estratégia que se repetiria no Afeganistão, no Oriente Médio e no Norte da África.
Israel, a Irmandade Muçulmana e o nascimento do Hamas
É nesse mesmo padrão estratégico que se insere a política israelense nos territórios ocupados entre as décadas de 1970 e 1980.
Durante esse período, Israel:
reprimiu duramente a resistência palestina laica, liderada pela Organização para a Libertação da Palestina,
enquanto tolerava e facilitava a atuação da Irmandade Muçulmana em Gaza, vista como um movimento religioso e “menos perigoso”.
Essa política permitiu que líderes como Ahmed Yassin organizassem redes de assistência social, mesquitas e instituições religiosas — que mais tarde se tornariam a base estrutural do Hamas, fundado oficialmente em 1987.
Como observa o jornalista investigativo Robert Dreyfuss, autor do livro Devil’s Game, Israel apostou que o caráter religioso do Hamas enfraqueceria a unidade do movimento nacional palestino.
Ex-diplomatas e analistas de segurança chegaram a reconhecer que o Hamas foi, nas palavras de alguns, “um projeto que saiu do controle” — resultado de uma estratégia de curto prazo que ignorou consequências futuras.
Um inimigo útil
A existência do Hamas passou a cumprir uma função política crucial: fornecer um inimigo permanente. Enquanto o Hamas existe, Israel pode:
justificar o bloqueio de Gaza,
evitar negociações substantivas,
e apresentar-se internacionalmente como vítima em um conflito assimétrico.
Isso não significa que o Hamas seja uma invenção fictícia ou um simples fantoche. Significa que seu surgimento foi facilitado por decisões conscientes, e que sua existência hoje é politicamente funcional para a manutenção do status quo.
Conclusão
Israel não “criou” o Hamas no sentido literal, mas contribuiu decisivamente para o ambiente que possibilitou seu surgimento, como parte de uma estratégia clássica de dividir para governar. O resultado foi um ciclo de radicalização que beneficia o ocupante e condena o ocupado a uma guerra permanente.
Enquanto o terrorismo for tratado como causa — e não como sintoma da ocupação — qualquer discurso de paz continuará sendo apenas isso: discurso.
Aqui estão FONTES SÉRIAS, verificáveis e amplamente citadas que sustentam a tese histórica (não conspiratória) de que Israel favoreceu a Irmandade Muçulmana em Gaza e contribuiu indiretamente para o surgimento do Hamas, além do uso estratégico do islamismo político pelo Ocidente.
📚 Livros (fontes primárias e acadêmicas)
Devil’s Game
Autor: Robert Dreyfuss
📌 Analisa como EUA, aliados e Israel instrumentalizaram o islamismo político durante a Guerra Fria.
✔ Fonte central para o argumento.
Hamas
Autora: Beverley Milton-Edwards
📌 História detalhada do Hamas, incluindo o período de tolerância israelense à Irmandade Muçulmana em Gaza.
A History of Modern Palestine
Autor: Ilan Pappé
📌 Demonstra como Israel usou estratégias de fragmentação política palestina.
Por Adrien (Claudia M) — formada em Direito e Publicidade, carioca e pesquisadora independente, com foco em análises críticas sobre ciência, poder e narrativas contemporâneas.