Conhecido por manter seus pacientes sob condições desumanas, o Hospital Colônia já foi taxado como um campo de concentração nazista
A LIMPEZA SOCIAL OCULTA: COMO O ESTADO BRASILEIRO APAGOU 60 MIL VIDAS EM BARBACENA
A VOLTA DO TERROR: O RISCO DO RETROCESSO
No início do ano, o Ministério da Saúde do governo Bolsonaro atacou as demandas da luta antimanicomial, presente no Brasil há mais de 30 anos. Essas demandas foram criadas justamente para combater as violações aos direitos humanos nos hospitais psiquiátricos após os anos 1970.
O Ministério sugere novas diretrizes de políticas de saúde a respeito de doenças mentais e drogas, e abre possibilidades para que o terror dos manicômios se instale novamente - como aconteceu no caso de Barbacena.
A ORIGEM DA "CIDADE DOS LOUCOS"
O complexo manicomial conhecido por "Cidade dos Loucos" foi fundado em 12 de outubro de 1903, em Barbacena, Minas Gerais.
Antes de ser um local focado no "tratamento" psiquiátrico, o Hospital Colonial de Barbacena tratava pacientes vítimas da tuberculose. Isso explica a localização afastada do hospital, no topo de uma montanha.
O local era perfeito para o que viria depois: excluir e esconder da sociedade os grupos marginalizados que o Estado queria apagar.
A DIVISÃO DOS PAVILHÕES DA MORTE
A instituição era formada por diversos prédios e pavilhões, e cada um deles tinha uma especialidade.
Entre eles estavam o Pavilhão Zoroastro Passos, para onde iam as mulheres indigentes, e o Antônio Carlos, a área dos homens indigentes.
Os pavilhões Afonso Pena, Milton Campos, Rodrigues Caldas e Júlio Moura recebiam todo o tipo de pessoas, sendo que 70% deles não tinha nenhum diagnóstico mental.
Eram alcoólatras, homossexuais, prostitutas, viciados em drogas, e mendigos.
Eram os indesejados pela sociedade.
O AUGE DO EXTERMÍNIO E O REGIME MILITAR
Os métodos de tratamento e as condições do Manicômio causaram a morte de mais de 60 mil pessoas. O período em que mais morreram pessoas nessa instituição foi por volta de 1960 a 1970, no início do Regime Militar no Brasil (1964-1985).
O psiquiatra italiano Franco Basaglia, responsável por revolucionar o sistema de saúde mental de seu país, chamou a instituição manicomial de Campo de concentração nazista, conhecida também como Holocausto Brasileiro.
A RESISTÊNCIA E O LEGADO DE NISE DA SILVEIRA
A resistência até mesmo por parte dos psiquiatras foi forte no Brasil, afinal, esse sistema de tratamento não ocorria só em Barbacena, mas era utilizado em mais de 150 locais — como o Hospital Psiquiátrico do Juqueri e a Colônia Juliano Moreira.
A psiquiatra Nise da Silveira se destacou na luta antimanicomial brasileira. Nise foi a única aluna de uma sala cheia de homens a se formar em medicina na Faculdade da Bahia. Aluna de Carl Jung, dedicou sua vida a lutar contra o modo absurdo de "tratamento" aos pacientes psiquiátricos.
O COMÉRCIO DE CADÁVERES: A MORTE COMO NEGÓCIO
O Hospital Colônia transformou a morte em um negócio lucrativo. Quando o cemitério da instituição lotou e não havia mais onde enterrar as vítimas, a administração passou a vender os corpos dos internos para faculdades de medicina de todo o país.
Entre os anos de 1969 e 1980, os registros indicam que o hospital vendeu legalmente pelo menos 1.823 corpos para 17 faculdades diferentes. O dinheiro dessas transações não era revertido em melhorias para os pacientes, sumindo na burocracia da instituição.
Quando não havia interesse de compra por parte das faculdades, os funcionários utilizavam ácido para dissolver os corpos ou os enterravam em covas rasas com cal, apenas para acelerar a decomposição e liberar espaço para os próximos que morreriam.
o livro da Daniela Arbex que você citou no "Saiba Mais" detalha exatamente isso: o abandono total. Muitas pessoas entraram jovens e o Estado simplesmente esqueceu que elas existiam, deixando-as envelhecer e morrer sem nunca terem tido uma doença mental real.
Aqui está o parágrafo sobre o esquecimento e a morte por velhice dentro do manicômio:
O ESQUECIMENTO E A MORTE NO CONFINAMENTO
Muitos internos foram abandonados pelas famílias e pelo Estado, passando décadas dentro dos pavilhões. Sem nunca terem recebido uma visita ou um diagnóstico médico real, essas pessoas simplesmente envelheceram e morreram dentro do manicômio.
O isolamento era tão absoluto que o hospital se tornou o único mundo que conheciam. Gerações inteiras foram apagadas, vivendo e morrendo sob o mesmo teto de horror, sem nunca recuperar a liberdade ou a identidade.
SAIBA MAIS
- Livro: Holocausto Brasileiro - Vida, Genocídio e 60 Mil Mortes No Maior Hospício do Brasil, Daniela Arbex, Geração Editorial, 2013.
- Fonte: https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/manicomio-de-barbacena-o-holocausto-brasileiro-que-matou-60-mil-pessoas.phtml

